A arte de importar problemas (parte 1): ou a Ku Klux Klan e a ideologia Woke
- Uriel Araujo
- 20 de fev.
- 6 min de leitura
Atualizado: 20 de fev.
Não bastasse a miríade de problemas crônicos que acometem qualquer sociedade, sempre há aqueles que, insatisfeitos com o estado atual, dedicam-se a importar problemas. Trata-se tanto de (pre)ocupar-se com problemas imaginários, que só existem acolá mas não cá, quanto de efetivamente trabalhar para que tais preocupações e ansiedades materializem-se, assim implementando aqui os problemas faltantes. As duas situações, veja só, não raro participam de um mesmo movimento, uma vez que os sonhos e fantasias não são outra coisa senão os próprios blocos construtores do mundo em que habitamos. Assim, enquanto alguns sonhadores (egoístas) dedicam-se apenas a construir utopias imaginadas de harmonia e contentamento, outros sonhadores, cheios de empatia, trabalham duro para que os problemas e crises específicas de culturas exóticas em países distantes sejam igualmente vividos por nós, brasileiros: conflitos étnicos, crise migratória, segregação racial, islamismo fundamentalista e otras cositas más, das quais a maioria das pessoas no Brasil nunca nem ouviu falar. É uma espécie de democratização das mazelas - os maldosos diriam que é como se tais sonhadores invejassem as agruras sofridas por outros e quisessem delas participar, irmanando assim, numa mesma cruz e numa mesma paixão, uma só humanidade co-sofredora.
Que esquerdistas e progressistas há alguns anos vivem de fazer precisamente isso, é coisa bem sabida. Por exemplo, num país em que o máximo de discriminação que os descendentes de asiáticos enfrentam é ouvir ocasionalmente alguma piada de gôsto duvido sobre “flango” ou tamanho do pênis, parte dos “despertos” já busca importar (em grandes fóruns populares como colunas da Folha ou o Twitter) discussões sobre “febre amarela” (“yellow fever”, o fetiche sexual) ou sobre representatividade asiática. “Precisamos falar sobre isso” e coisa e tal. "É sobre isso!" Nos EUA, que é o modelo e paradigma de todas as coisas, existe histórico de pogroms violentos realizados contra as lojinhas locais de coreanos, em bairros/guetos afroamericanos - com saques, incêndios criminosos, e os lojistas do comércio local se abrigando e se armando com fuzis AK-47. Nas riots famosas de 1992, em Los Angeles, por exemplo, foi preciso mobilizar a Guarda Nacional da Califórnia e os militares americanos, envolvendo mais de 10 mil homens para resolver a situação. Mais de 12 mil pessoas foram presas, 2.380 feridas e houve danos à propriedade de mais de 1 bilhão de dólares. E é só uma dentre tantas riots. Entretanto, talvez seja lá politicamente incorreto falar sobre esse tipo de xenofobia ou de conflito étnico porque, no caso, envolve agressores negros (atacando coreanos) e é nojento e absurdo imaginar que negros, como qualquer ser humano, também possam ter sentimentos de xenofobia ou serem a parte hostil em qualquer contenda - onde já se viu?






Em todo caso, racismo anti-asiático, nos EUA não falta: basta se lembrar dos discursos da época das guerras contra o Vietnã, a Coreia e o Japão - e de parte do discurso anti-chinês na Nova guerra Fria atual.



Portanto, para não ficarmos para trás, por aqui também urge denunciar o racismo contra amarelos (é a categoria do IBGE, não reclamem), mas, veja bem, desde que praticado por brancos que, aliás, são ontologicamente (e não só por definição) o único grupo humano capaz dessas coisas. Sendo assim, para não ficarmos de fora, o melhor seria que as Forças Armadas brasileiras envolvessem-se em algum conflito na Ásia, de preferência enviando tropas formadas, em sua maioria, por soldados brancos (ninguém quer ver, afinal, não-brancos cometendo atrocidades - pega mal denunciar isso e, além disso, seria muito fácil confundir visualmente um caboclo brasileiro com um asiático da Indonésia ou Malásia e não queremos isso). Seja como for, dizia eu, o melhor seria arrumar algum conflito na Ásia para o Exército brasileiro se envolver: talvez no Timor Leste, que não é lá tão East Asian assim, mas é um local onde o Brasil já tem algum histórico de influência. Poderíamos recrutar uns rapazes de Santa Catarina ou, sei lá, de Criciúma, Guarapuava ou de algum lugar bem branco e nazista desses, e enviar tropas de paz para o Timor Leste a qualquer pretexto, e então esperar até os soldados brasileiros começarem a cometer abusos ali e violações de direitos humanos. Assim, teríamos material farto para protestos, filmes e canções retratando e denunciando essas monstruosidades e com todo o charme e a mística que envolve tudo isso como bônus.

Os norte-americanos dos EUA realmente estão bem mais avançados nisso aí. De fato, há uma linha que conecta, de um lado, as leis de apartheid ou segregação racial Jim Crow mais os atentados terroristas da Ku Klux Klan e, de outro lado, os protestos violentos do Black Live Matters e o movimento Woke. Fica a lição de que não é fácil ser uma sociedade militantemente anti-racista: para chegar lá, é preciso, entre outras coisas, ter.. bom, um histórico de racismo brutal e hegemônico.

É por isso que as forças progressistas que hoje são a vanguarda na sociedade e governo brasileiro buscam aprender sobre relações raciais com quem realmente entende do assunto (vide a Embaixada Americana, USAID e fundações tantas), isto é, com os EUA, país onde era ilegal casamento de branco com negro até 1967. Escravidão eles trambém tiveram, mas vale lembrar que, em 1963, o governador do Alabama, George Wallace, foi pessoalmente até a Universidade do Alabama para, sob aplausos, ficar parado na frente do auditório e impedir que alunos negros fossem se matricular ali (para estudarem junto com brancos). Esse mesmo período testemunhou vários atentados a bomba da KKK e grupos similares e também de grupos “Black nationalists” (que também eram contra integração racial, aliás). Mais recentemente, em 2009, um juiz de paz, Keith Bardwell, se recusou a reconhecer o casamento de um casal inter-racial (Beth Humphrey e Terence McKay; ela branca e ele, preto). O casal teve de recorrer na justiça para conseguir o matrimônio (o fato é que vários militantes “Woke” aplaudiriam, aliás, a luta do juiz de paz Barwell contra a “palmitagem”). Além disso, passeatas da Ku Klux Klan são legalizadas e acontecem até hoje nos EUA.


Enquanto isso, no Império do Brasil, em pleno século XIX, num país escravocrata, já existia uma elite mulata, no funcionalismo público e na produção cultural, com figuras de destaque como os "barões do chocolate", como Francisco Paulo de Almeida, o Barão de Guaraciaba (um dos homens mais ricos do Brasil, que, aliás, chegoui a ter 200 escravos) ou ainda João Maurício Wanderley, o Barão de Cotegipe, Presidente do Conselho de Ministros, considerado braço-direito do Imperador Dom Pedro II. Mais ainda, havia uma situação em que brancos e negros se casavam e tinham filhos (onde já se viu?) sem nenhuma lei de apartheid racial que os proibisse de frequentar os mesmos ambientes ou de usar os mesmos banheiros e onde se reconhecia a situação de mistura e de mestiçagem, e se falava até (horror!) em “mulatos”, “caboclos” etc (ao invés de se usar categorias raciais norte-americanas) e uma situação onde, pior ainda, havia negros e mulatos em posições de destaque na sociedade (!!!).


Tudo isso contribuiu para criar, no Brasil, país do atraso, um tipo de racismo que não só existe (como é o caso em qualquer lugar do mundo) como ainda por cima é de uma natureza mais sutil, insinuante, sem expressão política explícita autorizada (à la Ku Klux Klan), e sem histórico de violência paramilitar de “White Nationalists” nem assassinatos políticos ou atentados terroristas. Ou seja, temos aqui um racismo infinitamente pior do que o norte-americano. É por isso, evidentemente, que precisamos aprender com os gringos e deles exportar as melhores práticas e políticas no que diz respeito a relações étnicas e raciais, se preciso for, construindo orgulho e identidade étnica (e segregação, sob o nome de “espaços de convivência”) onde não há.


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Curiosidade: este texto foi rejeitado para publicação alhures. Por que será?
Disclaimer: o texto contém algum grau de ironia (hoje em dia, é preciso explicar tudo). Mas o assunto é sério.
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