Força-tarefa criada por Trump para tirar sigilo da morte de Kennedy, caso Epstein e "OVNIS" é parte de sua guerra ao Deep state
A versão original deste artigo foi publicada em 18 de fevereiro de 2025 - segue atual
Faz cerca de um mês desde que Donald Trump tomou posse como presidente dos EUA, em 20 de janeiro de 2025. Em meio à pilha de decretos que Trump assinou (pelo menos 65 até o presente momento e a cada hora surgem mais), assim confundindo analistas e jornalistas, uma medida em específico, apesar de ter recebido pouca atenção, destaca-se em sua aparente peculiaridade: o líder americano criou uma força-tarefa para liberar ao público documentos secretos relacionados a uma série de assuntos, incluindo os assassinatos do ex-Presidente John F. Kennedy (JFK) e de Martin Luther King (MLK), íder da luta pelos direitos civis. A papelada inclui ainda os negócios obscuros de Jeffrey Epstein, o bilionário americano que prostituía mulheres e meninas menores de idade para outros membros da elite, incluindo políticos e aristocratas.

O que está ocorrendo? Será que o sonho de todo "conspiracionista" ou "teórico da conspiração", ou seja, uma divulgação ampla e total, finalmente vai se realizar? Essa jogada, assim como tantas outras do novo governo americano, com certeza impressionou várias pessoas. A verdade é que, por razões óbvias, muitos indivíduos poderosos devem estar perdendo noites de sono por conta disso.

Quando se trata de tentar entender os objetivos estratégicos ou as ideias de Trump, existem diversas opiniões, mas parecem predominar duas posições:
1. Diversos especialistas, após muito esforço para ver sentido no novo governo americano, concluíram que Trump é simplesmente uma força do caos, e que a mente dele está além (ou aquém) de qualquer compreensão. Jasmine El-Gamal, analista política do Oriente-Médio, por exemplo, disse ao Al Jazeera que "tentar analisar psicologicamente Donald Trump é perda de tempo. Ninguém sabe o que se passa na cabeça de Trump".
Da mesma forma, para o diplomata e político John Bolton, o presidente dos EUA é muito instável; um homem imaturo (uma "criança grande" ou "man-child", nas palavras dele). Em uma entrevista, Bolton afirmou (por volta dos 7 minutos no vídeo) que o líder republicano "não tem uma filosofia" e "nem uma grande estratégia":
"Ninguém sabe [o que Trump vai fazer], nem o [próprio] Donald Trump sabe, pois depende de como vai ser o humor dele hoje, ou como vai se sentir à tarde, ou amanhã, ou no outro dia"
Na mesma entrevista Bolton acrescentou, que, do seu ponto de vista, toda a conversa sobre fazer do Canadá "o 51° estado" dos EUA foi apenas um jeito de "trollar" ou sacanear o Primeiro-Ministro canadense, Justin Trudeau, pois Trump "não gosta" de Trudeau.
2. Outros analistas, por sua vez, parecem acreditar que Trump é, sim, um agente racional. O jornalista Zachary B. Wolf, da CNN, vê as ações de Trump à luz da assim chamada "Teoria do Louco", um termo supostamente criado pelo ex-Presidente John Nixon. Daniel W. Drezner, professor de Política Internacional da Universidade de Tutfs, sugere que Trump usa sua imprevisibilidade como uma ferramenta. De acordo com ele, "a Teoria do Louco diz que um líder que age como se ele fosse capaz de fazer qualquer coisa é um líder que tem mais chance de persuadir outros atores globais a fazerem concessões que, normalmente, eles não fariam." Resumindo, é uma espécie de coringa, fingindo-se de louco para persuadir - ou dissuadir - outros.
A explicação mais acima (1), dada por Bolton, contudo, dificilmente pode ser levada a sério. Estamos falando, afinal, de um homem que, como escrevi alhures, após ter sido derrotado e mesmo humilhado por Biden nas eleições de 2020, conseguiu, praticamente, tomar de assalto a máquina do Partido Republicano e acabar com o que eu chamo de a Era Bush-Clinton, mostrando-se, assim, mais esperto do que essas duas famílias, que têm sido as mais poderosas da política americana nas últimas quatro décadas. Estamos falando de um empresário de sucesso, um ex-Democrata que conseguiu se reinventar como o mais popular líder Republicano, e que conseguiu superar vários processos judiciais, tendo sido inclusive preso. De tudo isso, saiu por cima; com certeza, não se trata de um idiota. A "Teoria do Louco" ou uma variante desta faz, portanto, muito mais sentido.

Por exemplo, a ameaça trumpista de impor tarifas (postergadas) ao Canadá e ao México, por um lado, tem sido, em larga medida, uma forma de intimidar os líderes destes países e assim conseguir concessões. A força-tarefa criada por Trump para divulgar arquivos secretos do governo federal poderia, portanto, ser encarada da mesma forma. Tendo hoje a máquina estatal bem aparelhada e em sua mão e tendo colocada pessoas leais em posições-chave, o Presidente americano pode contar com elas para que liberem os documentos meticulosamente e de forma bem filtrada – o desafio aqui está controlar o fluxo de informações para que o próprio Trump não saia prejudicado (as ligações dele próprio com Epstein são notórias, por exemplo).

Esses arquivos talvez não contenham, por exemplo, uma prova de que a CIA matou JFK, como muitos acreditam e até esperam, mas não é nada improvável que eles venham a lançar luz sobre, por exemplo, o envolvimento compremetedor da CIA com o crime organizado - afinal de contas, é bem sabido que diversos presidentes dos EUA (inclusive Kennedy) tiveram ligações com a Máfia, como escreve o pesquisador Eric Dezenhall em seu novo livro "Wiseguys and The White House: Gangsters, Presidents, and The Deals They Made" ("Mafiosos e a Casa Branca: Gângsters, Presidentes e os acordos selados por eles" - ainda sem tradução em português).

É preciso ter em mente que Trump está ameaçando exonerar milhares de agentes do FBI enquanto nomeia "outsiders" (ou indivíduos "estranhos no ninho", dissidentes) e pessoas leais a ele para chefiarem as principais agências de inteligência. Manchar publicamente a imagem dessas agências, principalmente se valendo, para tanto, de casos famosos como o assassinato de JFK, pode ser uma boa forma de mobilizar a opinião pública, criar indignação e, então, reformar e reformular essas mesmas agências da forma que Trump bem entender - enquanto se aproveita do grande apoio popular que espera angariar para fazer tudo isso.
Portanto, em vez de se tratar de apenas uma excentricidade ou, menos ainda, de uma demonstração de transparência e de algum esforço para "democratizar" o governo federal, a decisão trumpista, aparentemente tão surpreendente, está de acordo com outras medidas e com a assim chamada Guerra contra o "Deep state" travada por Trump (na verdade, uma guerra contra setores do "Deep State").
Os apoiadores de Trump frequentemente o retratam como um populista com a boca no trombone (denunciando malfeitos etc), ou seja, como alguém disposto a cortar o mal pela raiz e a lutar contra a corrupção e contra uma cultura institucional de segredos e falta de transparência. Já os críticos, por outro lado, preferem descrevê-lo como um lunático imprevisível que age de acordo com seus caprichos. É claro que apenas Trump sabe quais são os verdadeiros objetivos dele próprio (se é que ele tem mesmo objetivos bem definidos, ainda que maleáveis), porém faz muito mais sentido acreditar que ele está levando adiante uma empreitada para aumentar seus próprios poderes presidenciais.
Temos aí uma guinada "Cesarista", que vem bem a calhar para um Império em decadência. Como eu escrevi anteriormente, trata-se de redefinir o próprio papel do Presidente e do Poder Executivo, como propõe o Project 2025. Geralmente, teóricos da conspiração não interpretam lá muito bem as coisas e nem acertam muito; seja como for, na montanha de documentos classificados como sigilosos (que supostamente serão divulgados pelo governo Trump), é certo que deve haver alguns podres da CIA e de outras agências e muita sujeira envolvendo diversos poderosos. O mesmo se aplica à chamada "Lista de Epstein" (seus clientes e contatos da elite) e o mesmo com a peculiar e constrangedora crise política envolvendo os drones (ou "OVNIs") que vemos hoje aterrorizando americanos em vários condados sem explicação convincente da parte das autoridades. Trazer a público uma pequena fração disso tudo já seria suficiente para criar um cenário apocalíptico (dependendo do ponto de vista) e tudo isto faz com que muita gente fique disposta a negociar e fazer acordos - o jogo em Washington (e na maioria dos sistemas políticos) sempre funcionou assim.

As ameaças de Trump de fazer uma auditoria (inédita e liderada por Elon Musk) da "caixa-preta" do Pentágono devem ser interpretadas da mesma forma - ora, se existe um Deep State ou um "estado paralelo", é evidente que Musk, o oligarca, representa uma boa fatia do próprio Deep State que Donald Trump diz combater. A menos que o presidente norte-americano realmente esteja disposto a levar adiante uma cruzada contra a grande mídia, a indústria farmacêutica (vide RFK), o complexo militar-industrial e outros. Se for este o caso, ele não vai conseguir governar, a menos que fazer uma revolução esteja nos seus planos - e a correlação de forças necessária para tanto é intricada, no mínimo.

Resumindo, as ações de Trump podem ser melhor compreendidas como parte da sua guerra contra setores do "Deep state" para reformar o Estado e aumentar seus próprios poderes e são, também uma forma de "dar um recado", para obter vantagem e aumentar sua capacidade de negociação no sistema político americano por meio de intimidação (é o que os americanos dos EUA chamam de "leverage"). Em suma, é jogar m... no ventilador para ter cartas na mesa. Como diz Daniel W. Drezner, utilizando-se da abordagem contida na "Teoria do Louco" (Madman Theory), isso tudo pode até funcionar, mesmo internamente - mas, como é o caso com todas as ideias "loucas", existe o risco disso resultar em um "conflito" que pode "sair de controle".
Uriel Araujo, PhD (antropologia) é um pesquisador com foco em conflitos internacionais e étnicos.
Traduzido e adaptado de "Trump’s Task Force to Declassify JFK, Epstein and “UFO” Files Is Part of His War Against Deep State", (o autor publicou uma versão menor deste artigo originalmente em inglês)
As opiniões expostas neste artigo não necessariamente refletem a opinião do Sol da Pátria
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