O fim do financiamento da USAID e a dependência da esquerda global: entre interesses e soberania
- Leandro Altheman Lopes
- 25 de fev.
- 4 min de leitura
A recente decisão dos Estados Unidos de cortar- ou reduzir significativamente- o financiamento da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional) levanta uma série de reflexões sobre seu papel global e as consequências dessa medida.
Durante décadas, a USAID funcionou como uma das principais ferramentas do chamado soft power norte-americano, operando sob o pretexto de promover democracia, desenvolvimento e direitos humanos.
No entanto, sua atuação muitas vezes esteve alinhada a interesses estratégicos do Departamento de Estado dos EUA, influenciando políticas internas de diversos países e financiando grupos alinhados aos seus objetivos geopolíticos.
Entre os setores mais impactados por essa mudança estão organizações, movimentos e partidos progressistas que, ao longo dos anos, passaram a depender do financiamento da USAID para sustentar suas atividades.
No Brasil, essa dependência se manifestou de forma expressiva, especialmente no campo da esquerda, que, apesar de defender causas legítimas, muitas vezes agiu em sintonia com os interesses estratégicos norte-americanos.
A contradição é evidente: enquanto discursos nacionalistas ou soberanistas eram rechaçados como “reacionários” ou “populistas,” muitos desses grupos progressistas ignoravam que sua estrutura de financiamento vinha de uma agência governamental estrangeira.
Assim, a USAID funcionou como um mecanismo de alinhamento ideológico e geopolítico, operando sutilmente para direcionar agendas políticas e sociais.
Exemplos de Interferência da USAID na Política Internacional
A atuação da USAID em outros países mostra claramente seu caráter estratégico e sua utilização como ferramenta de influência dos EUA. Dois exemplos concretos ilustram essa dinâmica:
1. Venezuela – Financiamento a Juan Guaidó:
Em 8 de outubro de 2019, a USAID assinou um acordo de financiamento com o governo interino autoproclamado de Juan Guaidó, destinando US$ 98 milhões para fortalecer sua oposição ao governo de Nicolás Maduro. O financiamento visava apoiar a Assembleia Nacional Venezuelana, a mídia independente, a sociedade civil e a restauração do setor de saúde. O objetivo final era desestabilizar o governo de Maduro e abrir a Venezuela e suas reservas de petróleo para corporações norte-americanas.

2. Campanha anti-Rússia:
Embora não existam fontes confirmando um orçamento exato de US$ 598 milhões, diversas investigações apontam que a USAID destinou recursos para sustentar redes de mídia independentes em países do Leste Europeu visando enfraquecer a influência russa. Essa estratégia faz parte da guerra de informação entre os EUA e a Rússia, reforçando discursos favoráveis ao Ocidente enquanto mina a narrativa do Kremlin.
Além desses casos, outros países já reconheceram a USAID como um instrumento de ingerência política.
Na Bolívia, Evo Morales expulsou a agência em 2013, acusando-a de financiar grupos opositores e desestabilizar seu governo.
Em Cuba, a USAID tentou promover dissidência interna ao criar redes sociais clandestinas como o "ZunZuneo", uma espécie de "Twitter cubano" que buscava incitar protestos contra o governo.
A Atuação da USAID no Brasil
No Brasil, a influência da USAID remonta à ditadura militar, quando firmou acordos com o governo para reformar a educação através dos Acordos MEC-USAID. A iniciativa foi duramente criticada por intelectuais e setores progressistas, que viam nela uma tentativa de alinhar o sistema educacional brasileiro aos interesses norte-americanos.
Nos últimos anos, a USAID tem sido acusada de financiar ONGs e veículos de mídia brasileiros que sustentam narrativas favoráveis à agenda política dos EUA. Investigações apontam que organizações como Sleeping Giants Brasil, Alma Preta e a Agência Lupa podem ter recebido recursos da agência, embora estas neguem vínculos diretos.

O Fim do Financiamento e os Impactos na Esquerda Global
Com o fim ou a redução desse financiamento, surge um questionamento sobre o futuro dos movimentos e organizações que dependiam desses recursos. Sem os fundos norte-americanos, esses grupos terão de buscar novas fontes de financiamento, o que pode resultar em maior autonomia política ou, por outro lado, no enfraquecimento de suas ações.
Essa mudança também expõe a fragilidade de um modelo político e social que, ao invés de se sustentar em bases nacionais sólidas, foi construído com apoio externo. Para os defensores da soberania nacional, essa pode ser uma oportunidade para reorganizar as bases de atuação política e social sem a influência direta de Washington. Já para os setores progressistas que dependiam desse suporte, o desafio será encontrar novos meios para manter sua relevância e influência no cenário político.
A questão central que se coloca é: até que ponto a USAID serviu como um mecanismo de ajuda internacional legítima e até que ponto operou como um instrumento de ingerência sobre as políticas e soberania das nações?
A resposta para essa pergunta determinará como diferentes setores políticos interpretarão o impacto do fim do financiamento.
A decisão dos EUA de interromper ou reduzir o financiamento da USAID não é apenas uma questão burocrática. Ela expõe uma realidade pouco discutida: a dependência de parte da esquerda mundial, especialmente a brasileira, desse suporte estrangeiro. Mais do que isso, levanta o debate sobre a soberania nacional e os mecanismos sutis de influência que moldam a política global.
O fim desse financiamento não significa necessariamente o fim da influência norte-americana no Brasil ou no mundo. Mas, sem dúvida, representa um marco na reconfiguração das forças políticas e sociais que, por anos, operaram sob o amparo financeiro da USAID.
Resta saber se esse cenário abrirá espaço para uma maior autonomia dos movimentos políticos ou se apenas deslocará o financiamento para outras fontes, mantendo a mesma lógica de dependência externa.
Assim como a própria USAID já promoveu apoio a ditaduras na América Latina no passado, esse apoio pode muito bem novamente migrar da esquerda progressista para setores mais comprometidos e alinhados com os interesses de Washington, como é o caso da direita bolsonarista.
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