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O som plangente de Nelson Cavaquinho

Há 43 anos deixava-nos um dos maiores compositores da música brasileira, sambista imortal de nossa história: trata-se de Nelson Cavaquinho, feito da vida poeta trágico, marcado pelos versos carregados de uma angústia inconsolável e de uma profundidade tremenda.



Nascido a 29 de outubro de 1911 na Tijuca, Nelson Antônio da Silva não podia escapar a seu destino: filho de um contramestre da Polícia Militar e sobrinho de um violinista, cresceu em meio às rodas de samba organizadas no quintal de sua casa e, quando já moço e morando na Gávea, passou a frequentar os bailes, veio-lhe à mão o cavaquinho e dele fez sua vida.


Cedo, Nelson se viu obrigado a abandonar os estudos para trabalhar e ajudar a família, mas nem isso afastou de si a paixão pela música. Nos bailes, conheceu músicos que lhe introduziram no cavaquinho, e desde já se particularizava pelo toque característico do instrumento: dedilhava com dois dedos da mão direita. Virou o Nelson do Cavaquinho. Isto ainda na adolescência. Aos 16 compôs sua primeira música, “Queda”, que logo apresentou aos amigos da noite carioca. Foi logo convidado a integrar a formação de um conjunto de choro e samba que se apresentava pelos clubes da Gávea. Note-se, porém, que, a despeito de tocar o cavaquinho, não possuía um para si; era preciso tomá-lo emprestado toda vez. Foi um português da vizinhança que, sensibilizado, presenteou-lhe com o seu primeiro instrumento.


Pouco mais tarde, com vinte anos, casou-se com Alice Ferreira Neves; por influência do sogro, logo ingressou nos quadros da cavalaria da Polícia Militar, que lhe daria, em suas andanças, a sua sorte definitiva: nas rondas noturnas pelo Morro da Mangueira, conheceu, dentre outras figuras, Carlos Cachaça e Cartola, com quem travaria longa amizade - os dois com trajetórias muito similares. Nessas idas à Mangueira sucedeu que, certa feita, estendeu-se em longa conversa com Cartola e seu cavalo tornou ao quartel sem o montador, o que lhe rendeu prisão posteriormente - uma das muitas vezes em que foi detido por indisciplina, já que abandonava seu posto para frequentar a noite do Rio.

O casamento, mesmo com filhos, não duraria muito tempo; em 1938, separado e afastado de suas crianças, pediu baixa na Polícia e abraçou de vez a boêmia. Passou a viver da música e para a música, vendendo os direitos autorais de suas composições e tocando noite afora.


Nos anos 50, conheceu um jovem Guilherme de Brito pelos bares da vida. O rapaz, de início mero admirador, passou logo a parceiro, apresentando-lhe uma música que Nelson complementou. Daí nascia uma rica parceria, que em poucos anos culminaria na assinatura conjunta de clássicos quais "A flor e o espinho", "Pranto de poeta", "Quando eu me chamar saudade", todas expressivas da grande melancolia que permeava a existência de Nelson e sua obra.


A exemplo de Cartola, Nelson foi uma estrela tardia. A despeito de ver suas grandes composições tomando os palcos nas vozes de Nara Leão, Elizeth Cardoso, Paulinho da Viola e Nelson Gonçalves, dentre tantos outros ícones da música, só gravou dois discos - curioso destacar, de antemão, que à altura da gravação dos discos, Nelson já havia trocado o cavaquinho pelo violão, mas não mudara o jeito de dedilhar as cordas, que sempre o singularizou. O primeiro, em 1967 (Depoimento de Poeta), em formato de depoimento, que conta com a gravação de uma entrevista dada ao jornalista Sérgio Cabral e algumas de suas composições. Dois anos depois seria objeto de um breve documentário do cineasta Leon Hirszman, que marca uma confissão: ''Já passei por tantas coisas tristes [...] e minhas músicas são um pouco tristes, mas eu gosto de palestrar com amigos, brincar, porque tristeza só nas músicas, sabe?''. No ano de 1972, a gravadora RCA Victor publicou o disco ''Série-Documento''. Afora esses dois discos, fez participações nos álbuns de amigos, e em homenagens, como um disco gravado por Thelma Soares só com as suas composições, em que, sob a regência do maestro Radamés Gnatalli, interpreta três faixas.


O que não compartilhava com o amigo Angenor - com quem inclusive chegou a compor o brevíssimo grupo A Voz do Morro, em meados de 1961 -, contudo, era o tom paternal e o alento que este trazia em suas letras. Nelson era mesmo um poeta visceral. A miséria humana era o seu tema preferido, e falava abertamente da decadência, que canta em ''Degraus da Vida'' (Sei que estou / No último degrau da vida, meu amor / Já estou envelhecido, acabado), de traições, a que serve de exemplo a música ''Dona Carola'', (Fui amigo enquanto/ Eu tive dinheiro / Hoje não tenho companheiro), da covardia, como em ''História de um Valente'' (Quem diz, não mente / Na mão de um fraco / Sempre morre um valente).


Nada de um pessimismo materialista ou meramente niilista, mas pura e simplesmente o realismo de um pobre filho de Deus, despido de vaidade e resignado, que aprendeu a carregar a sua cruz em um mundo de aflições; a vida, todavia, essa máquina de contradições, não se furtaria a fazer de Nelson uma de suas vítimas, e calharia de ser uma canção carregada de esperança e revolta, ‘Juízo Final’, uma de suas composições mais célebres, que para além de sua interpretação magistral, ficou eternizada na voz apoteótica de Clara Nunes.


Não cansou de cantar as flores, que figuram em 'Quando eu me chamar saudade' e são o objeto central de 'Eu e as flores', em que registra, com genialidade, os versos


'Quando eu passo

Perto das flores

Quase elas dizem assim:

Vai que amanhã enfeitaremos o seu fim'


E o fim chegou - não antes da gravação, em 1985, do LP 'Flores em vida', que oportunamente, nas vozes de Beth Carvalho, João Bosco, Chico Buarque e Toquinho coroou o seu legado, regravando seus maiores sucessos - a 18 de fevereiro de 1986, aos 75 anos, depois de uma longa e rica jornada sobre a terra. Vivia há vinte anos com a esposa Durvalina, que chorou a partida do músico, decorrente de um enfisema pulmonar. Contrariando a sua previsão, no entanto, de seguro que não só em Mangueira choraram sua morte, como cantou em 'O Pranto do Poeta'. Mas choravam e ainda choram, por todo o Brasil, como sonhara, 'um pranto sem lenço [...] através de um pandeiro e de um tamborim'. E que efeito tem a música, que emociona com as músicas alegres e conforta com o som plangente de um violão feito cavaquinho.


'Quem veio ao mundo é para sofrer', mas sofrer na terra de Nelson é um privilégio.


Por fim, ninguém melhor descreverá o homem que Tinhorão: ''Tome um homem seu violão, cante pelas ruas como um antigo trovador da Idade Média a beleza das flores, a efemeridade da vida e a angústia metafísica da morte, e esse será o retrato de Nelson Cavaquinho. Com sua cabeleira branca, seu permanente ar de dignidade e a sua voz enrouquecida por muitos anos de cervejas geladas, o que Nelson Cavaquinho canta (fazendo percutir, mais que dedilhando, as cordas do seu violão) é a saga de um homem que vive em estado de poesia. E cuja obra, por isso mesmo, não morrerá.''

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