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Paquistaneses, a pedofilia e o Ocidente OU a arte de importar problemas (parte 2):

Foto do escritor: Uriel AraujoUriel Araujo

Escrevi antes (leia aqui) sobre aqueles que, não satisfeitos com o nosso modesto acervo de problemas, lutam incansavelmente para trazer-nos outros. A luta para importar problemas alheios, contudo, não se restringe à fauna política da esquerda identitária woke e similares. Na nova direita (liberal-conservadora filo-Alt Right e congêneres) também abundam esforços para que os dramas etnopolíticos e etnorreligiosos de norte-americanos dos EUA, de europeus e britânicos sejam incorporados ao rol de preocupações e angústias dos brasileiros, já que temos tão poucas. Um exemplo envolve as ansiedades de jovens incels, “red-pills” e outros “tribos urbanas” (o mais correto seria dizer “tribos de internet”) a respeito de uma suposta ditadura totalitária feminista num tal de “Ocidente”, que eles pensam que inclui o Brasil.


Que todo tipo de feminista radical e extremista do “gênero” há alguns anos vive de defender os maiores absurdos, sobretudo em lugares como a Escandinávia e países anglo-saxões, é coisa bem sabida. Já os guerreiros da “manoesfera” brasileira - não é a esfera dos “manos”, mas uma tradução horrível de manosphere, que é o jeito inglês de se referir ao conjunto de fóruns na internet frequentados só por simpáticos homens masculinistas - os guerreiros da “manoesfera” brasileira, dizia eu, andam muito preocupados, denunciando a “cilada” em que consiste casar-se ou ter quaisquer relacionamentos com as mulheres, pois elas, pérfidas, poderiam tomar todo seu patrimônio, fazer acusações falsas de estupro e coisas do gênero. Alguns afirmam que é temerário até mesmo abordar uma mulher para convidá-la para sair, para tomar um café, para ir jantar e essas coisas que as pessoas fazem quando querem conhecer alguém ou namorar. Fazer isso já traz consigo, afirmam, o risco de ser preso sumariamente por assédio sexual. Pouco importa o fato de que, no mundo real, não se tem notícia de absolutamente ninguém, no Brasil, que tenha sido preso por simplesmente convidar educamente uma mulher para sair - e o Brasil segue em todo caso sendo um país com alto índice de assédio sexual, violência doméstica e outros problemas reais que as feministas, com razão denunciam, entre distorções e exageros. Exatamente como as feministas, os masculinistas se (pre)ocupam com um misto de problemas reais e alarmismo e propaganda política alimentada por patologias culturais e psicológicas - mas isso é tema para outra ocasião.


***


O último problema exportado em nosso mundo globalizado (que é antes um mundo anglossaxonizado) são os sentimentos de indignação que vieram à tona, no Reino Unido, com um escândalo execrável envolvendo o acobertamento de múltiplos casos de abuso sexual de meninas britânicas perpetrados por gangues criminosas de estupradores paquistaneses[1]. Na verdade, o problema já é denunciado há pelo menos cerca de uma década[2]. Alguns casos envolvem tortura sexual e uso de certo tipo de instrumentos durante sessões em que meninas adolescentes eram violentadas por múltiplos homens - não vou mencionar os detalhes porque são abomináveis. É um caso repugnante e o problema é sério e real, entretanto se tornou politicamente incorreto falar dele graças aos tabus e neuroses dos progressistas que, em alguma medida, são culturalmente hegemônicos no Establishment britânico e ocidental. Por outro lado, diferentes vertentes de certa “nova direita” britânica e, por tabela, da direita de toda angloesfera e da direita global (graças ao Google Tradutor e às agências de notícias), vêm abordando a questão com o característico misto de demagogia etnorracial e alarmismo que hoje é obrigatório para toda a militância política e não apenas para a esquerda woke - embora esta última ainda seja mestra em tal arte.


Aqui cabem algumas breves colocações (ou não tão breves):


  1. Está claro que há no Reino Unido, um esforço para abafar o escândalo (das gangues estupradoras paquistanesas). Porém, seria duma ingenuidade oportunista monumental imaginar que autoridades policiais e políticas no Reino Unido dedicar-se-iam por anos a abafar escândalos envolvendo estupros coletivos (“gang-rapes”) de tamanha brutalidade apenas por conta de sensibilidades politicamente corretas. Nós não vemos nada disso quando se trata, por exemplo, de proibir protestos pró-Palestina (e a maioria dos Woke, verdade seja dita, é pró-Palestina), proibição que tem ocorrido, com várias prisões, não só na Grã-Bretanha, como na maioria dos países europeus. No caso, o lobby pró-Israel fala mais alto, por exemplo. A ideologia "Woke" pode ser influente - mas há limites. O que é mais provável que esteja acontecendo é a “weaponization” (instrumentalização) do politicamente correto para outros interesses pérfidos: a atuação de uma rede mafiosa que, como se passa com o crime organizado em toda parte, goza de alguma penetração em esferas políticas, policiais e governamentais, corrompendo, subornando, ameaçando, cooptando ou chantageando poderosos. Ora, um estudo[3] de 2006, já abordava o papel de gangues paquistanesas no narcotráfico britânico. Talvez, em se tratando do abuso de adolescentes, esteja ocorrendo algo como o caso Epstein, em escala reduzida. Eu comecei a escrever um esboço deste texto no início de janeiro de 2024 e imagino que, até sua publicação, virão à tona mais detalhes sobre isso, se eu não estiver equivocado.

  2. Não é como se escândalos envolvendo elites políticas e financeiras e redes de pedofilia, aliciamento, abuso e tráfico de mulheres jovens, meninas e crianças (de ambos os sexos) fosse algo desconhecido no mundo anglo-saxão (norte-americano, australianos e britânico). A BBC por anos abafou as denúncias envolvendo o milionário filantropo e apresentador Jimmy Savile[4], que era também amigo pessoal e conselheiro da Lady Diana e do Príncipe Charles (hoje mais conhecido como Rei Charles III, Rei do Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Antígua e Barbuda, Jamaica, Granada, Bahamas, Belize, Papua Nova Guiné, São Cristóvão e Nevis, Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Tuvalu e Ilhas Salomão). Atualmente se sabe que, ao longo de décadas, “Sir” William Savile, 3º Baronete de Thornhill,  abusou de um total de pelo menos 450 crianças e adolescentes, incluindo pacientes com câncer e crianças em orfanatos dos quais ele era patrono. O mesmo script ocorre ao longo de todo o espectro político, bastando mencionar, para ilustar isso, o caso Epstein ou o escândalo de Nebraska, envolvendo o político do Partido Republicano Lawrence E. King Jr (não se deve confundir com o apresentador de mesmo nome) e os tours à meia-noite de meninos na Casa Branca, durante os governos de Reagan e seu vice e sucessor Bush, o Diretor da CIA [5]. Ou o escândalo no abrigo infantil de Haut de la Garenne, na ilha de Jersey,  um território britânico, onde, por décadas, aristocratas e políticos participaram de abusos e os acobertaram - no local foram encontrados, em 2008, até mesmo várias ossadas de crianças estupradas e assassinadas[6]. Ou ainda o caso Dutroux na Bélgica, envolvendo meninas raptadas pelo cafetão Marc Dutroux, abusadas por poderosos e assassinadas, com vítimas esqueléticas encontradas acorrentadas num porão, junto a ossadas, como em filmes de suspense e terror (num caso que não foi fechado até hoje)[7]; outro affair escabroso é o escândalo de Westminster[8], envolvendo pedofilia e vários membros do Parlamento britânico. Na verdade, um estudo relativamente recente[9] concluía, em 2020, que políticos britânicos têm abafado escândalos de pedofilia por décadas - e talvez seja porque existe uma cultura de pedofilia e vários deles possuem envolvimento. Infelizmente, eu poderia continuar com exemplos por várias páginas - existem hoje documentários no Netflix e plataformas similares sobre praticamente todos os casos que eu mencionei.

    "Homosexual prostitution inquiry ensnares VIPs with Reagan, Bush"
    ""Inquérito sobre prostituição homossexual complica autoridades, incluindo Reagan e Bush - 'garotos de programa" fizeram tour meia-noite na Casa Branca" - a investigação dizia respeito a adolescentes, meninos órfãos e crianças

    Jimmy Savile com Príncipe Charles, hoje Rei Charles
    Jimmy Savile com Príncipe Charles, hoje Rei Charles

  3. Por exemplo, o famoso bilionário cafetão de meninas adolescentes e crianças Jeffrey Epstein foi condenado na Flórida, pelas suas atividades criminosas e, após cumprir uma pena ridícula, voltou para Nova Iorque, em março de 2011 (menos de três anos após a condenação) onde participou de um jantar ao qual o próprio Elon Musk também compareceu, embora Musk tente se apresentar como um “outsider” ou alguém muito distante de tais elites corruptas, formadas em grande parte por criminosos sexuais impunes. Antes de morrer, em 2019, aparentemente "suicidado" em sua cela após ser preso novamente, Epstein na verdade se encontrou com vários colegas bilionários do ramo de "tech", incluindo Bill Gates (o cara do Windows e das vacinas), Mark Zuckerberg (o do Facebook) e Reid Hoffman, fundador do Linkedin[10].

    Epstein com Bill Gates - Fonte: New York Times
    Epstein com Bill Gates - Fonte: New York Times


  4. Na Alemanha, um experimento científico do governo envolveu colocar crianças órfãs sob os cuidados de criminosos sexuais que eram notoriamente pedófilos cadastrados. Várias crianças, previsivelmente, foram abusadas, com conhecimento das autoridades. Trata-se do famoso experimento Kentler[11]. De novo, eu poderia, infelizmente, continuar com exemplos outros por mais várias páginas.

  5. Segundo matéria da BBC, por 10 anos existiu na Grã-Bretanha, um grupo político pró-pedofilia chamado literalmente Paedophile Information Exchange ou PIA (ou seja, "Rede Pedófilia de Informações") - esse era o nome oficial e público do grupo e não é difícil deduzir o que eles defendiam. Parafraseando a matéria da BBC, tudo começa com uma conferência de direitos das pessoas gays em Sheffield (Reino Unido) apoiando uma moção a favor da pedofilia - um jornal de circulação nacional (o Guardian) noticiou isso, à época, assim: "Amantes das crianças ganham batalha para ocuparem um papel na luta pela libertação gay" ("Child-lovers win fight for role in Gay Lib").  O grupo evoluiu num sentido mais inclusivo, abraçando a causa de pedófilos heterossexuais e homossexuais, igualmente: um dos homens que se filiou ao grupo declarava, no formulário de filiação, ter atração por meninas entre 7 e 13 anos de idade[12]. Novamente, eu poderia continuar com exemplos que incluem dezenas de papers publicados nas principais revistas acadêmicas ocidentais nos dias de hoje (defendendo a normalização da pedofilia), mas acho que já deu para entender.


***


Em nenhum dos casos acima, envolvendo literalmente milhares de crianças abusadas por poderosos com acobertamento das autoridades por décadas, existe a participação ou a presença de paquistaneses ou de migrantes ou de muçulmanos de qualquer origem. As elites políticas ocidentais já vêm acobertando esse tipo de coisa bem antes de qualquer migração islâmica ou paquistanesa. Goste-se ou não desse dado, a verdade é que não é difícil argumentar que a cultura mais permissiva em relação à pedofilia no planeta Terra é a cultura ocidental, principalmente em sua vertente teutônica e anglo-saxã.


Agora, considere o seguinte: por anos, a direita anglossaxã vem propagando discursos sobre o Islam (e nisso são imitados pela direita brasileira). Afirmam que é uma religião essencialmente e intrinsecamente "pedófila" ou "pró-pedofilia". Será que isso faz sentido? É o que vamos ver.

(CONTINUA)




Notas:

  1.  "The child rape scandal dominating UK politics after Musk criticism", Kate Holton, Reuters, 6 de jan. de 2025

  2.  Vide, por exemplo, “Grooming gang convictions '84% Asian', say researchers”. Sally Lockwood, Sky News, 10 de dez. de 2017

  3.  “British South Asian communities and drug supply networks in the UK: A qualitative study". Vincenzo Ruggiero & Kazim Khan (doi:10.1016/j.drugpo.2006.03.009), 2006.

  4.  '”Everyone knew' about Jimmy Savile, former officer says”. Danny Savage, BBC News, 17 de out. de 2013

  5.  “Homosexual prostitution inquiry ensnares VIPs with Reagan, Bush”. Paul M. Rodriguez & George Archibald, The Washington Times, 29 de jun. de 1989.

  6.  "Six more bodies feared buried in Jersey home". Helen Pidd, Guardian, 25 de fev. de 2008

  7.  “Belgium's silent heart of darkness”. Olenka Frenkiel, Guardian, 5 de maio de 2002

  8.  “The Westminster child abuse ‘coverup’: how much did MPs know?” Michael White, Guardian, 17 de mar. de 2015

  9.  “British politicians covered up child sex abuse for decades, inquiry finds”. Elizabeth Howcroft, Reuters, 25 de fev. de 2020

  10.  “Fact Check: Did Elon Musk Visit Jeffrey Epstein After Release From Prison?. Newsweek, 9 de nov. de 2022.

  11. The German experiment that placed foster children with pedophiles”. Rachel Aviv, The New Yorker, 19 de julho de 2021

  12.  “How did the pro-paedophile group PIE exist openly for 10 years?”. Tom de Castella & Tom Heyden, BBC News, 27 de fev. de 2014.


Curiosidade: uma versão deste texto foi rejeitada para publicação alhures.


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