top of page

Que diabos é fascismo: ou as bruxas nunca foram tão reais

Atualizado: 12 de out. de 2024

Uma versão deste texto foi originalmente publicada na revista Valete, número 15, em maio de 2024. Segue atual.


Pelo que dizem, a democracia, essa donzela sempre em apuros, vê-se hoje ameaçada, de um lado pelas “fake news” e o negacionismo e, de outro, pelo fascismo e populismo, espectros que rondam o Ocidente e sua periferia desde 1945. Não são estes os únicos fantasmas a assombrar os modernos, veja você, “em pleno século XXI” - para usarmos este clichê insciente, com toda sua teleologia e ideologia evolucionista social implícita.


O sabá das bruxas

Ora, “em pleno século XXI”, os conflitos étnicos e religiosos se multiplicam. Em pleno século XXI, o terrorismo, a expansão territorial, o nacionalismo irredentista (por vezes genocida), o fundamentalismo e o separatismo abundam, para espanto dos intelectuais progressistas desbundados com tamanho anacronismo que teima em existir mesmo perante todas as maravilhas do mundo moderno criado por Henry Ford, Edward Bernays (sobrinho de Sigmund Freud), por Breton Woods (nas pessoas de Stalin, Churchill e Roosevelt), pelo Plano Marshall, os petródolares e, mais recentemente, Steve Jobs e Elon Musk.


Pior ainda: na contramão do que pensavam os profetas da modernização, em muitas partes do mundo hoje, as acusações de bruxaria permanecem um problema social grave. É assim no sudeste asiático, Oceania, África e alhures. No continente africano, com a urbanização, aumento da escolaridade etc, o problema na verdade aumentou (vide o  livro "The modernity of witchcraft", ainda não traduzido, do antropólogo holandês Peter Geschiere). 


"The modernity of Witchcraft" ou "O caráter moderno da bruxaria" - Peter Geschiere

Em várias partes da África, como já comentei alhures, as pessoas acusadas de bruxaria não raro são linchadas ou queimadas, acusadas de terem causado doenças misteriosas, mortalidade infantil e coisas do gênero - às vezes infantes são também acusados. Sociedades secretas mascaradas como o Poro (misto de Máfia, maçonaria e Santa Inquisição), atuante hoje na Libéria, Serra Leoa e Costa do Marfim, têm se dedicado a combater a suposta bruxaria, não raro com violência - e, curiosamente, empregando também meios mágicos: é comum, afinal, os próprios caçadores de bruxos serem também acusados de bruxaria - é da lógica mesmo dessa categoria nevoenta enredar em sua teia acusadores e acusados. Nunca se sabe... A caça às bruxas (no caso, bastante literal) tem mobilizado ONGs e entidades de defesa dos direitos humanos.


Yo no creo em brujas, pero que las hay, las ya - dizem. Sem entrar no mérito (Deus nos livre!) da possível realidade da coisa, os antropólogos geralmente descrevem a bruxaria, nesses casos, como categoria acusatória, pois normalmente ninguém se define (ou se assume) como bruxo. Bruxos, entenda-se, são sempre os outros.


Algo muito parecido se passa com o espectro do fascismo: esse também tem se multiplicado, em pleno século XXI, e, não por acaso, é também usado (e weaponized) como categoria acusatória. Fascismo e bruxaria emergem, assim, na contramão da suposta marcha mundial rumo à modernidade, à paz planetária e ao progresso. Infelizmente, estudar esse fenômeno (do fascismo) nos coloca frente a diversos desafios: trata-se de fenômeno mais diáfano e de difícil definição do que a bruxaria da África subsaariana. Os africanos, quando acusam alguém de ser bruxo, geralmente sabem bem do que estão falando e sabem quais são as supostas características de um bruxo - há certo consenso, entenda-se. Coisa bem diversa se dá com o fascismo.


O tema mobiliza e tumultua o X (antigo Twitter), esta ágora de nossos tempos - ao menos enquanto a plataforma não for proibida no Brasil, já que ela é também alvo da caça às fake news (mas essa é outra história). Nesses espaços, têm sido acusados de fascismo figuras tão diferentes quanto o Hamas, Netanyahu, Zelensky, o Putin, o Bolsonaro, Ciro Gomes, o Lula, o MBL, Maduro, Milei, Trump - e o próprio Twitter e seu dono. Traços de fascismo, são encontrados - e denunciados! - na paixão por futebol, no hábito de comer carne (ou, pior, tomar leite!) na obra de Tolkien, nos filmes da Disney, no Rock e Metal e também na música clássica, além do halterofilismo e o Dia das Mães.


O termo, geralmente igualado a nazismo, é usado para descrever tanto um tipo de social-democracia corrupta com forte atuação sindical quanto o neoliberalismo mais desregulamentado (aquele do “Viva la libertad, carajo!”). 


Assim como a bruxaria, o fascismo parece não ser outra coisa senão a manifestação terrível das forças das trevas, em luta eterna contra as forças da luz. Trata-se, sem dúvida, de uma teologia política que não se assume como tal. A filósofa Márcia Tiburi, de forma muito rigorosa e científica, explica que o fascismo é "sobretudo, o desejo de aniquilação do outro". Pior ainda: ele não é "nada mais" que "a deturpação da subjetividade operada pelos jogos de poder", no quadro de uma guerra entre, de um lado “Eros” (o amor) e, de outro, “Tanatos”, a morte (o contrário do amor e da vida) - nas palavras da escritora, em artigo chamado “O desafio da política”, de 2018. Em obra mais recente, com o título de “Como derrotar o turbotecnomachonazifascismo”, Tiburi aparentemente apresenta uma definição mais sofisticada. Como não a li, não posso comentar, mas imagino que expanda as ideias anteriores.


Coisa bem diferente leio quando consulto o clássico “The birth of Fascist ideology” (Princeton University Press), do grande historiador israelense Zeev Sternhell. Já na Introdução, nas página 4 e 5, o erudito assevera que o Fascismo não pode, “de maneira alguma”, ser “identificado com o nazismo”: o racismo, afinal, nunca foi item obrigatório no Fascismo e, na Itália, havia “inúmeros judeus Fascistas” - isto é, filiados ao Partido Fascita de Benito Mussolini. Assim, qualquer teoria geral que tente “combinar” Nazismo e Fascismo é, para Sternhell, “impossível”. Sternhell não faria muito sucesso no antigo Twitter, creio - nem nos meios acadêmicos brasileiros, infelizmente. “Você está passando pano para o Fascismo, por acaso?” 


"The Birth of Fascist Ideology: From Cultural Rebellion to Political Revolution". Zeev Sternhell

Pior ainda: a ideologia Fascista, produto sobretudo dos seguidores italianos e franceses do teórico sindicalista Georges Sorel, não se limitaria, para Sternhell, a uma simples reação ao marxismo: foi antes, ele argumenta, uma revisão (antimaterialista e anti-racionalista) do marxismo, buscando superar a sociedade burguesa (p. 5). É, infelizmente, Sternhell não viveu o suficiente para poder aprender com os especialistas em “extrema-direita” que hoje são citados por alguns de nossos grandes jornais.


Stanley George Payne, uma das maiores autoridades do mundo sobre fascismo (em sentido ampliado), ao invés de retratar o fenômeno como pura revolta contra o mundo moderno, prefere descrevê-lo (em “A History of Fascism: 1914-45”) como uma espécie de lado B da modernidade, digamos assim. Ou seja, como um movimento que rejeitava “o racionalismo, o materialismo e o igualitarismo”, porém resgatando certo “vitalismo filosófico” e certa “metafísica da vontade” - que são elementos intrinsecamente modernos, ligados a uma ideia de “natural” e de “natureza humana” do século XVIII (em contraposição ao materialismo e reducionismo). Já Roger Griffin defende que o que é central nos fascismos é um núcleo mítico que consiste em "uma forma palingenética de ultra-nacionalismo populista" - a ideia de palingênese e o tema do “Novo Homem” tão caro aos fascismos têm raízes cristãs (vide São Paulo, Colossenses 3:10 e também Efésios 4:24).


"A History of Fascism, 1914–1945". Stanley G. Payne

Seja como for, essa forma híbrida tentava combinar, na Itália, características do livre-mercado e sua eficiência, com o sindicalismo corporativista, por meio de uma Revolução de tipo Marrausiano, com ênfase em valores marciais, ainda segundo Sternhell. Era a expressão concreta de uma “cultura política” de tipo “comunitarista, anti-individualista e anti-racionalista”, que rejeitava a herança do Iluminismo e da Revolução  Francesa em uma revolta violenta contra os aspectos “desumanizantes da modernidade” (p. 6 do livro que citei mais acima - tradução minha). Logo, longe de ser um tipo de anomalia, era, para o historiador, uma expressão de certas correntes intelectuais ocidentais.


É evidente que Sternhell escreve especificamente sobre o Fascismo “original”, o italiano. Mais ou menos como aconteceu com a palavra “xamanismo” (os Xamãs “originais” eram siberianos apenas) e com a palavra “totemismo” (Totem sendo originalmente uma palavra da língua indígena Ojibwe, da América do Norte), o termo fascismo começou a ser usado em sentido ampliado para referir-se a uma miríade de movimentos nacionalistas europeus dos anos 1920-1940, como a Falange Española, o Parti Rexiste belga, a Garda de Fier (Guarda de Ferro romena) e o Movimento Nacional-Sindicalista em Portugal, entre vários outros que guardavam alguma semelhança estética ou programática com o Partito Nazionale Fascista de Benito Mussolini (este último, o Fascismo com F maiúsculo, digamos assim). Aqui ainda existe, note-se, uma tentativa erudita de criar uma categoria da Ciência Política, por problemática que seja, buscando-se encontrar uma espécie de denominador mínimo comum entre esses diferentes movimentos, uns clericalistas, outros anticlericais; uns futuristas, outros agraristas.


Um evento que vem à mente agora exemplifica bem a complexidade do tema: em agosto de 1942, na Espanha de Franco, ao final de uma homenagem aos Carlistas mortos na guerra, um Falangista, Juan José Domínguez Muñoz, lançou uma granada contra os Carlistas presentes, na saída da basílica de Nuestra Señora de Begoña. Setenta pessoas ficaram feridas. Essa é uma pequena amostra das tensões que existam entre os diferentes grupos nacionalistas franquistas espanhois: os Carlistas eram monarquistas tradicionalistas, que defendiam a autonomia basca num Estado confederado, enquanto o Falangistas apoiavam um Estado unitário, com influências anarco-sindicalistas - por incrível que pareça. Os Falangistas odiavam os "reacionários" Carlistas. Aliás, a maioria dos historiadores e cientistas políticos não consideram nem Franco nem Salazar fascistas (no sentido ampliado que apresentei acima).


Alheio a tais filigranas, recentemente, um dos especialistas do Twitter explicava que “o fascismo é um movimento de massas reacionário, que trás [sic] um discurso político de ‘restauração nacional’, saudoso de tempos ‘áureos’ e com forte aspecto anti-modernista”. Aparentemente, ele nunca leu "Futurismo e fascismo" de F. T. Marinetti nem nunca viu nenhuma das expressões artísticas de vanguarda do Ventennio fascista. Diante de tal objeção, o especialista em questão triplicou, de forma irrefutável: “fascismo da Itália não conta” - o que evidentemente encerra a discussão.


"Futurismo e fascismo". Marinetti (1924)
"Aeroritratto di Mussolini aviatore". Alfredo Ambrosi, 1930

De fato, é perfeitamente possível, razoável e normal ser um especialista em fascismo sem nunca ter ouvido falar de Renzo De Felice, dos sorelianos nacional-sindicalistas, de Giovanni Gentile, de Vilfredo Pareto, de Filippo Tommaso Marinetti, do Cercle Proudhon e sem nunca ter lido os livros de historiadores e especialistas como Stanley Payne, Ernst Nolte, Roger Griffin, Zeev Sternhell e outros (esta é a bibliografia básica, aliás). Mas para quê tudo isso quando temos os livros de Márcia Tiburi e os experts das redes sociais, de direita e de esquerda (com destaque para a última)?


Tiburi, manjada, é sempre um alvo fácil, entretanto hoje abundam os “especialistas em extrema-direita” que, por cortesia, não irei nomear. Em todo caso, um deles (Michele Prado), em uma de suas análises, confundiu a Cruz Celta (uma cruz dentro de um círculo), muita utilizada por movimentos de “orgulho branco”, com uma mira e achou que era utilizada porque esses grupos simpatizam com o armamentismo. Tal é apenas uma pequena amostra da montanha de erros crassos e asnices que são diariamente vomitadas, com ar de quem está pontificando, pelos emergentes especialistas de uma indústria em crescimento, a indústria da denúncia do “fascismo”. Há uma demanda pelas suas explicações - e eles no-las fornecem de bom grado. E publicam livros e dão entrevistas. A democracia, afinal, precisa ser defendida. E, para tanto, serão necessárias caças a bruxas, cancelamentos, censuras, assassinatos de reputações, decisões monocráticas e tudo que for preciso. Entenda, os caçadores de bruxos (lembra?) frequentemente  se parecem bastante com os bruxos que caçam. Ademais, é também preciso comprar o leite das crianças, como se diz.


A cruz celta

Assim, questionar, timidamente, se é tecnicamente justo que mulheres trans (com físico masculino) possam competir no esporte juntamente com mulheres cis ou se não é, talvez, tememário encaminhar crianças e adolescentes tão prontamente para a transição de gênero e bloqueadores de hormônios pode ser, sem dúvida, uma pauta de “extrema-direita” e fascista - e haverá agências de checagem confirmando-o, não se preocupe. Criticar bilionários como Soros e seu papel na sociedade através da Open Society e sua rede também é um sinal inequívoco de fascistagem (mas denunciar o bilionário Elon Musk, veja só, ainda é aceitável, até onde eu sei)


********


É disso que se trata e não de outra coisa - ou como dizem os jovens, “é sobre isso”. Não se trata aqui de uma categoria de ciência política aplicada para fomentar debate informado e confecção de políticas públicas: é antes uma categoria acusatória a serviço de uma nova teologia política, brandida ora histérica ora oportunisticamente por esquerda, direita e pelo extremo-centro hegemônico, mas que é usada, cá entre nós, de forma particularmente pérfida e obtusa pela esquerda progressista anti-fascista, que é hoje ponta de lança do movimento político e de massas mais puritano (em sentido ampliado), mais maniqueísta, censurador e intolerante das últimas décadas. E com amplo apoio do “grande capital” e das grandes potências; ideologia “woke”, afinal, é hoje vetor do soft power norte-americano. Mais do que um boneco de palha (como tem sido o abuso do termo “comunismo” para boa parte da direita desde a Guerra Fria), o “fascismo”, assim entre aspas, é hoje a sombra dum Ocidente decadente, o seu reflexo no espelho distorcido, o bode expiatório dos sonhos. E, no final das contas, não se engane: você também é fascista, hipócrita leitor, meu igual, meu irmão!


Contribua com nosso trabalho (pix):


Kommentare


© 2023 por Frente Sol da Pátria.

bottom of page